José Lino Souza Barros

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A jovem 

10/08/2019 às 11:42
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Ouça a crônica de Nelson Rodrigues na voz de José Lino Souza Barros 

O pai dava pulos de meio metro:
— Eu não admito, ouviu? Não admito!
Chamava-se Rosas, seu Rosas e não era o único a não admitir. Com efeito, além dele, todos os parentes, amigos, conhecidos, vizinhos condenavam o namoro de Livinha com o Alexandre. Perguntava-se: “Quem é o Alexandre?” Não tinha onde cair morto. De mais a mais, um vadio nato e hereditário. Vivia de expediente, mordendo amigos, conhecidos, a partir de dez reais. Livinha era interpelada:
— Quer morrer de fome?
Teimava:
— Quero!
Amava o rapaz. Diga-se de passagem que tinha uma afetividade tremenda. Gostava de tudo e de todos. Queria bem até aos gatos vira-latas. Sabia que o Alexandre não era “flor que se cheire”. Ele a atraía por isso mesmo. Achava que podia regenerá-lo. E o rapaz também a amava. A princípio, a família dava conselhos, doutrinava. Mas Livinha era uma garota de caráter, de personalidade. Desafiava a feroz oposição familiar:
— Caso e pronto!
Foi então que seu Rosas avisou à mulher e aos vizinhos: “Vou apelar para a ignorância!” D. Adelaide, a mulher, ainda lhe fez a sugestão:
— Bate, mas não machuca!

A surra

Jamais dera um cascudo na filha. Naquela tarde, arregaçou as mangas e, com o cinto na mão, chamou a menina:
— Como é? Você desiste ou não desiste?
Com o lábio inferior tremendo, respondeu:
— Não!
O velho ergueu o cinto. A vizinhança, já informada da surra, apurava o ouvido.
Efetivamente, ouvia-se o estalo de cada lambada. Mas a menina não deu um “ai”. Enquanto ele batia, os moradores cochichavam entre si: “Olha a Livinha apanhando!” Por fim, cansado, bufando, seu Rosas pergunta:
— E agora? Desiste?
Ergueu o rosto duro:
— Não!
Ele ia talvez continuar. Mas a mulher, a empregada e um vizinho atracaram-se com ele:
— Chega! Basta!
Livinha, com lanhos nos braços, nas pernas, trincava os dentes de ódio.

O namorado

Seu Rosas já não sabia o que fazer. Restava-lhe um único e medíocre consolo — é que Livinha, se bem tivesse um corpo de mulher, fizera recentemente 16 anos. Como menor, não podia casar-se sem autorização da família. E o seu Rosas já pensava numa segunda surra, quando sopraram a ideia:
— Por que é que, em vez de bater na sua filha, o senhor não bate no namorado?
Seu Rosas esfrega as mãos:
— É mesmo! Ela não desiste, mas o namorado pode desistir!
O vizinho insiste:
— Pau nele, seu Rosas! Pau nele!
O velho tinha, em casa, uma garrucha hereditária que talvez não matasse nem passarinho. Fosse como fosse, a arma serviria de efeito moral. No dia seguinte, foi procurar o rapaz. Encontrou-o no bar e o chamou para uma esquina escura. Lá, houve ajuste de contas. Ele começa perguntando:
— Escuta aqui, rapaz! Por que é que você anda atrás de minha filha? Ou você não percebe que você não é do mesmo nível? Fala!
O outro gagueja:
— Mas eu gosto de sua filha!
Explodiu:
— Gosta nada! Você não pode gostar de ninguém! Você é um desclassificado! E olha aqui, seu crápula! 
Quando o rapaz viu, na mão do seu Rosas, a garrucha quase centenária, caiu num pânico abjeto. Chorou como um menino. Pedia, pelo amor de Deus:
— Não me mate! Não me mate!
Exultante da própria ferocidade, seu Rosas ditou condições:
— Por esta vez, passa! Mas se eu souber que você falou com a minha filha, meto-lhe um tiro na boca!
Ainda deu uns empurrões no pobre-diabo.

A pequena

No primeiro telefonema de Livinha, Alexandre pôs os pingos nos “ii”:
— Estive pensando melhor e não convém. Seu pai tem razão. É melhor acabar. E faz um favor: Não me telefona mais! Com licença.
Ainda berrou no telefone: “Alexandre! Alô! Alô!” Ele desligara. Ela voltou para casa fora de si. Entra, aos soluços:
— Mas o que é que papai disse ao Alexandre? Que foi?
Tinha vontade de bater com a cabeça nas paredes. Súbito, volta-se para a mãe, para as irmãs:
— Olha aqui! Vou avisar uma coisa, eu queria me casar, direitinho, com véu e grinalda e vocês não quiseram. Depois, não se queixem.

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