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Prosa Poética, no programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: 'Domésticas'

Por Mary Arantes , 09/08/2019 às 14:19
atualizado em: 09/08/2019 às 14:30

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No livro Heroínas Negras Brasileiras, de Jahid Arraes, conheci a história de Laudelina de Campos que foi ser empregada de família aos 7 anos. Nessa idade, cozinhava e limpava a Casa Grande. 

Durante toda sua vida lutou pelos direitos trabalhistas e contra o racismo, foi uma ativista em várias frentes, deixou um grande legado, fundou em 1961 uma associação que mais tarde se tornaria em Campinas, o primeiro Sindicato das Empregadas Domésticas do Brasil. Esta história me fez lembrar de quantas crianças pobres foram criadas por famílias abastadas, em troco de casa e comida. 

Em outros países, o normal é que ninguém tenha ajudantes em casa, aqui no Brasil, quem não tem se sente empobrecido, mal sabendo que cuidar da sua casa e da sua comida é o máximo de sofisticação e que empregadas, como ainda são vistas por muitos, são nada mais que um resquício da escravidão. Beatriz e Gegê, amigos espiritualmente elevados, nos ensinam que somos sim, capazes de administrar o próprio lar, fazer a própria comida e o próprio pão.

Conheço patroas que até hoje servem os pratos de comida pros seus “serviçais”, destinando a eles os pedaços da galinha com menos carne. Outras que na contratação pedem que a empregada procure fazer xixi quando estiver no banho, evitando dar descarga e consequentemente o desperdício de água. Lú, faxineira louvável, me contou que o normal hoje é a diarista levar sua própria marmita. No final do ano assistiu à uma “doce cena familiar”, todos se deliciando à mesa com um panettone, enquanto a boca da coitada, virava um brejo!

E você, como trata um amigo quando vai à sua casa? Imagino que dizendo seja bem-vindo, bom dia, boa tarde, por favor, melhorando a comida a ser servida no dia. Por que o tratamento dispensando a um funcionário destoa tanto do que dedicamos ao amigo? Quantos de vocês sentam-se à mesa com seus empregados?
Ulshuah foi nosso jardineiro por muitos anos. Vinha todo sábado e durante a semana almoçava no bandejão da prefeitura. Um dia me perguntou, se eu sabia fazer peixada, entendi a mensagem cifrada e o cardápio do próximo sábado, foi a tão desejada peixada. 

Por que ainda persistem nos prédios, o elevador e a entrada de serviço, separados do social? Por que a funcionária, que trabalha há 30 anos na sua casa, não pode subir pelo mesmo elevador que você e seus vizinhos? Por que o quarto da empregada continua a ser o mais afastado do corpo da casa? O quarto de empregada, com sua metragem reduzida e localização na área de serviço, diz muito sobre a história do Brasil e como algumas barreiras sociais jamais foram superadas. Esse resquício da casa urbana colonial precisa ser repensado. A luta da Laudelina continua!   

PS: Assista ao filme Domésticas, direção de Gabriel Mascaro


 

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