José Lino Souza Barros

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Primeiro amor

13/03/2018 às 10:08
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Crônica da semana

Quantas paixões teve na sua meninice? Aos oito, nove e dez anos, não via um filme que não se apaixonasse pelo "mocinho". Na escola, errava muito, desinteressava-se das lições, porque vivia sonhando com seus amores cinematográficos. E, assim, foi ficando mocinha e, por sinal, uma linda mocinha.

PRIMEIRO AMOR

Finalmente, aos quatorze anos, teve o seu primeiro amor por um homem real, tangível, de carne e osso. Chamava-se Joel e morava na mesma rua. Da janela, ela o via passar, todas as manhãs e todas as tardes. E fato é que se apaixonou. A menina vinha de dentro, nervosíssima; colocava-se, estrategicamente, e Joel passava. E nem tomava conhecimento dessa adoração infantil e cotidiana. Na ocasião, ele andava interessadíssimo numa divorciada que, no último Carnaval, saíra numa fantasia de Eva, imoralíssima. Que concorrência podiam oferecer os quatorze anos de Dayse aos trinta e três da outra? A menina invejava a trintona escandalosamente. A rigor todos os homens da rua a cobiçavam, secreta ou ostensivamente. Chamava-se Arlete e impressionava com seu busto, os seus decotes, o colo de prima-dona. Na rua, comentava-se, à boca pequena, o descaro da divorciada.

ESCÂNDALO

Para Dayse, a comentada "falta de vergonha", longe de ser um defeito, era quase uma virtude. O romance de Joel com Arlete foi um escândalo. "Podia ser a mãe dele", dizia-se na vizinhança. E de fato, havia entre os dois uma diferença de idade impressionante. Por outro lado, Arlete era sustentada por um senhor, calvo e barrigudo. Os vizinhos negavam-lhe o direito de trair o bom homem e muito menos com um quase adolescente. Uma tarde, porém, o velho aparece, de supetão, surpreendendo Joel no colo de Arlete. Como era um homem de idade, e cardíaco, foi um modelo de discrição. Sem uma palavra, deixou que o acovardado Joel desaparecesse. Arlete preparou-se para levar, no mínimo, uns tapas. Mas o homem limitou-se a tirar, da carteira a conta do telefone e do gás, que estavam no seu bolso, desde a véspera, para pagar. Pôs o papel em cima do aparador, caminhou até a porta; virou-se, de lá, e disse:
- Manda esse menino pagar o telefone e o gás.
Foi só. O tapa que ela esperava, não veio. Assim como entrou, o velho saiu. Dez minutos depois, toda a rua sabia do rompimento. Houve, por parte das mulheres, um comentário unânime e cruel:
- Bem feito! Bem feito!

TRAGÉDIA

Arlete caiu num pânico profundo. O patético foi na manhã seguinte, quando começou a romaria dos credores. A divorciada percebeu, subitamente, tudo. Agarrou-se ao telefone, histericamente; ligou para Joel, aos soluços: "Vem, depressa, chispado, vem!". Ele apareceu, assustadíssimo. Arlete atirou-se nos seus braços:
— Tens que me sustentar! Tens que me sustentar!
Branco e trêmulo, ele recuou:
— Mas com que roupa? Te sustentar com que roupa? Não tenho um centavo!
E só faltou virar os bolsos pelos avessos. Com uma energia insuspeita e máscula, Arlete segurou-o, com as duas mãos, sacudindo-o: "Você pensa que eu vivo de brisa, de ar?". E explodiu numa histeria maior:
— Palhaço! Cretino! — E abriu a porta:—Rua! Rua!
Saiu, de lá, escorraçado. E sua vergonha foi ainda maior, porque as janelas próximas estavam apinhadas de vizinhos curiosos. 

FIEL

Mesmo os amigos de Joel o advertiram: "Rapaz, estás mais sujo que pau de galinheiro!". E começou a circular, espalhada não se sabe por quem, a versão de que ele "tomava dinheiro da divorciada". Joel pôs as mãos na cabeça: "Essa, não! Essa, não!". E, de fato, jamais levara um tostão de Arlete. 

Pois bem. No apogeu da crise, ele recebe um telefonema de mulher. Uma voz feminina e anônima lhe dizia coisas deliciosíssimas: "Eu gosto de você, sempre gostei e gosto cada vez mais!". E continuou: "Isso que estão dizendo de você é despeito, ouviu? Inveja! Não liga!".
A verdade é que Joel deixou-se tocar. Pergunta: "Não quer dizer o nome? Por quê?". Dayse acabou fraquejando. Ele não se lembrava dela ou, pelo menos, não ligava o nome à pessoa. Marcaram um encontro para o dia seguinte, numa praça do bairro.

O PACTO

Ambos compareceram, com exemplar pontualidade. Mas quando Joel viu aquela menina, aquela garota, teve um acesso de pânico. Preliminarmente, fez a pergunta: "Que idade você tem?". Resposta, honesta e singela: "Quatorze anos". Ele, então, tratou de aconselhá-la: "Você tem muito que crescer, ainda, percebeu?". E insistia: "Você é muito criança, criança demais!". Dayse, vermelhíssima, não sabia o que pensar, o que dizer. Joel conclui:
— Olha, vamos fazer o seguinte: daqui a três anos, se você gostar ainda de mim, telefona. Combinado?

OS TRÊS ANOS

Pouco depois, ele mudava-se para outra rua, outro bairro. E o tempo foi passando. De vez em quando, Dayse recebia notícias do seu amado. Eram as piores informações possíveis. Diziam que vivia nos lugares mais sórdidos e que uma mulher o sustentava. Dayse era taxativa: "Eu não acredito!". Ela o amava como sempre ou como nunca. No fim dos três anos, liga para Joel: "Sou eu, Dayse. Não se lembra mais de mim?". De fato, ele não se lembrava. Fez um espanto imenso quando a identificou, finalmente: "Ah, sim! Agora me lembro! Como vai essa figurinha?". Muito clara e leal, a garota explicou que continuava a mesma etc. etc. Joel podia ser um fraco, um leviano, um amoral, talvez. Mas a candura da garota o comoveu. Tratou de desiludi-la:
— Eu não sirvo pra você, compreendeu? Primeiro, porque não presto mesmo. Depois, porque não vou me casar, não quero casar e pronto. Você deve procurar um rapaz sério, decente, livre.
E ela:
— Eu só quero você. O resto não interessa. Ou você ou ninguém.

OBSTINADA

E tanto Dayse insistiu, que, uma tarde, ele aceitou um encontro, numa sorveteria. Conversaram uma hora. Joel disse tudo o que tinha para dizer: "Eu pertenço a um mundo e você a outro. Eu sou um canalha e você uma menina séria". Para desiludi-la de vez, foi mais além: "Eu não trabalho, eu não tenho emprego. Vivo sabe de quê? Do dinheiro que as mulheres me dão. Você tem dinheiro? Dinheiro para me dar? Tem?". Com o lábio inferior tremendo, ela baixa a cabeça: "Não". 
— Pois é. Você não tem dinheiro e, além disso, é menor. Qualquer caso, entre nós, pode dar galho, polícia, cadeia e outros bichos. Quero sossego!

FINAL

Atônita, ela o viu levantar-se. Durante um, dois, três meses, ela, numa tristeza de todo o ser, viveu obcecada: "Ele quer dinheiro de mulher! Só dinheiro!". Passa-se o tempo. Três anos depois, ele recebe um novo telefonema. Parecia menos menina e mais mulher. Queria um encontro. Impressionado com a obstinação, Joel diz-lhe:
— Faz o seguinte: vem ao meu apartamento.
Dayse foi. Joel teve uma surpresa encantada quando viu entrar aquela juvenil senhora, tão linda e bem-vestida. Durante alguns momentos, em pé, olham-se, em silêncio. Escondendo a própria emoção, ela adota um tom alegre, frívolo. E foi dizendo: "Fiz um bom casamento, um casamento rico e posso fazer isso que você vai ver". Apanha na bolsa o talão de cheques, enche um deles e o destaca. Ri, docemente: "Agora eu posso pagar". Ele recebe o cheque de suas mãos, lê a quantia, a data, a assinatura: dez mil reais! Então, numa raiva súbita e metódica, ele põe-se a rasgar o papel, em mil pedacinhos. Em seguida, antes que a garota pudesse prever o seu gesto, agarra-a e a beija, com loucura, na boca, muitas vezes. Dayse retribui, num delírio. Quando se desprendeu, o rapaz explode:
— Ora bolas! Sabe que, por tua causa, eu ainda acabo um sujeito decente? E se rendeu à garota que o desejava desde criança.

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