Gustavo Lopes

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Transexuais no esporte

02/01/2018 às 02:45

A diversidade de orientação sexual e de gênero, acertadamente, tem se inserido cada vez mais no seio da sociedade atual.

Nessa linha, o Comitê Olímpico Internacional (COI) normatizou a participação de atletas trans nas modalidades de sua orientação sexual.

Assim, muitos trans de nascimento masculino, mas com orientação feminina, passaram a participar de competições femininas.

No Brasil, a ponteira Tiffany, que é trans e defende o Vôlei Bauru, chamou imensa atenção quando fez 25 pontos em um jogo e 30 no outro, e em três jogos passou a ter maior média de pontos de toda Superliga, superando Tandara, campeã olímpica que atua pelo Osasco.

A performance de Tiffany ganhou ampla divulgação da imprensa e, consequentemente, amplos debates sobre a inclusão ou não dos trans nas modalidades de opção.

De um lado estão os defensores da atuação dos trans na categoria de sua orientação sexual, sob o fundamento de que o esporte sempre foi um instrumento de inclusão de minorias. Entendem, ainda, que eventual proibição configuraria discriminação.

Além disso, como já mencionado, o COI regulamentou a questão e, sob o ponto de vista normativo, não há ilegalidade.

Para o COI, mulheres trans atletas podem competir depois de 12 meses de tratamento hormonal e passar por testes de hormônios, que devem apresentar testosterona abaixo de 10 nmol/L. A cirurgia de readequação sexual (genital) não é obrigatória e as atletas devem declarar seu gênero feminino sem opção de reversão, por “razões esportivas", durante quatro anos.

Um estudo norte-americano chamado Race Times For Transgender Athletes, realizado pela Providence Protland Medical Center, afirma que o tratamento hormonal de mulheres trans ou travestis traz um grande decréscimo da massa muscular e da densidade óssea. 

Por outro lado, os críticos defendem a proibição dos trans sob o fundamento de que há vantagens, pois os trans femininos tiveram suas massa corpórea, músculos e ossos formados com testosterona, ao contrário das demais mulheres.

Inclusive o médico João Granjeiro, coordenador da Comissão Nacional de Médicos de Voleibol (Conamev), responsável pela liberação de Tiffany para a disputa entre as mulheres, acredita que a atleta não deveria atuar entre as garotas, uma vez que nasceu homem e construiu seu corpo, músculos, ossos e articulações com testosterona alta, e que nenhuma mulher que não tenha se dopado conseguiria formar o mesmo corpo. 

Diante disso, é importante partir de um princípio que rege a atividade esportiva, de que é imprescindível e inafastável a paridade de armas (par conditio). Esse princípio norteia o controle de dopagem, que tem o objetivo de assegurar que atletas usem de substância externas para obter vantagem. No caso dos trans, ter um corpo criado biologicamente pelos hormônios masculinos pode trazer benefícios semelhantes ao doping.

Observe-se que, normalmente, o debate está em torno dos homens com orientação feminina, e não o contrário, o que levanta a indagação se a razão não seria o fato de as mulheres de orientação masculina terem enorme desvantagem biológica em competir com os homens.

Vale dizer que eventual proibição dos trans não configuraria discriminação, mas apenas norma garantidora da paridade de armas, tal como ocorre, por exemplo, nas divisões de pesos entre lutadores.

Em longo prazo, a inserção de trans nas modalidades femininas pode desestimular a formação de atletas biologicamente nascidas femininas e até transformar o esporte feminino em esporte trans.

A questão é nova e polêmica, e toda prudência é necessária.

O esporte deve ser instrumento de inserção social e combate à discriminação, mas deve se abster de posturas ideológicas, sob pena de ter toda a sua estrutura desvirtuada e comprometida.

A orientação sexual deve ser livre na vida civil, social e privada, mas sem perder-se de vista as diferenças hormonais e biológicas que existem e que podem trazer consequências drásticas para o futuro do esporte, especialmente o feminino.

Para tanto, o COI e as confederações devem abrir amplo debate entre atletas, treinadores, fisiologistas, médicos, entre outros, bem como alijar-se de anseios de movimentos politicamente corretos que, na maioria dos casos, desconhecem a fundo o complexo fenômeno desportivo.

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