Eduardo Costa

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Delírios em torno da injustiça 

12/09/2019 às 03:04

O desabafo de um procurador, diante do chefe, veio a público e causou repercussão espantosa. Para alguns. Afinal, como pode alguém se queixar tão indignado de um salário da ordem de R$ 24 mil? Sobretudo se considerarmos que, na verdade, com os penduricalhos, ele tem na conta, todo mês, três, quatro vezes mais? Não estou entre os escandalizados. Explico: o próprio procurador diz que, “infelizmente, não está acostumado a viver com pouco, passar necessidades”. É aqui que quero chegar. É sobre a elite branca, da qual ele faz parte, que quero falar.

E o que é elite branca? 

Francisco Bosco escreveu no jornal O Globo, em 2014, que é muito complicado defini-la. Mas é possível dizer o que ela quer. “Fazem parte da elite branca todos os sujeitos de grupos sociais privilegiados que denunciam difusamente as desigualdades do Brasil mas repudiam qualquer ato político real que as combata; todos os sujeitos incapazes de pensar e agir coletivamente, sempre colocando em primeiro – senão único – lugar as suas vantagens pessoais. Assim, o ilustre membro do Ministério Público não é um cara de pau, desumano, doido ou arrogante como ouvi nos últimos dias. Ele é membro da elite branca que, desde 1500 admite tudo, desde que cada um saiba seu lugar: os negros, os pobres, servindo... Os brancos surfando. Para eles, os bons colégios, as melhores faculdades, a aprovação nos concursos mais difíceis e os cargos mais elevados no serviço público. Lá, como juízes, promotores, auditores fiscais, cuidam da aposentadoria e da parentalha, ajeitando para o genro fazer perícias, a filha trabalhar no melhor escritório de advocacia e o neto ser sucessor na direção de um sindicato, uma OAB, algo forte. Tudo dentro da lei. E, assim acreditam, da ética. Cotas para negros em faculdade? Nem pensar. Terras para índios? Absurdo.

Odeiam comunistas, afinal, que ideia é essa de voltar ao estado natural e abolir a propriedade privada? Querem o capitalismo, com meios de produção lucrativos. E, dentro dos princípios da meritocracia, também acho correto o respeito ao esforço pessoal. Mas, se ouvissem o Papa João Paulo II teriam mais cuidado ao reservar tudo para a mesma turma. Por que não experimentarmos uma social democracia, com igualdade de oportunidades e meios para todos os indivíduos. Quem sabe se o filho da doméstica não pudesse estudar junto com o filho do patrão e trabalhar no escritório com os netos? Por que a gente não pode se contentar com R$ 15 ou R$ 20 mil para que a professora, o pedreiro ou o técnico de enfermagem ganhe R$ 5 mil? 

Por que a gente não ouve o Santo Papa João Paulo II? Pode ser por caráter humanitário, mas, pode ser por sobrevivência. Para que a gente possa andar num carro novo, ostentar joias, ir à rua. De que adianta ter tudo, menos o direito de ir e vir? Disse o Pontífice: “Enquanto não houve justiça social, não haverá paz”. 

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    'Eu estou levando minha revolta para um lado de injustiça, eu preciso de uma resposta. Eu guardei tudo no quarto do bebê. Essa dor parece que não vai passar', completa.

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