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Melhor impossível?

Numa trajetória tão perfeita, é natural que o “e se” não seja lembrado.

21/02/2018 às 10:49

Alguns anos sendo “apenas” um excelente jogador, um dos melhores do planeta: antes da retomada espetacular com a qual vem nos brindando desde o Australian Open de 2017 – e que culminou com a volta à liderança do ranking mundial divulgado oficialmente na última segunda (posto que não ocupava desde Outubro de 2012) –, Federer viveu uma fase, digamos, de certa baixa na carreira – óbvio, para seus parâmetros extraterrestres. Este período materializou-se, grosso modo, pela soma de dois fatores: a queda do maior de todos os tempos, que enfrentou temporadas de menos consistência, em que não se mostrava tão afiado, impactante, com instantes espetaculares de Nadal, o ápice de Djokovic e, em menor escala, de Andy Murray.  

Há cerca de uma década venho escutando, com frequência, enquanto acompanho o circuito de tênis, profissionais da área dizendo que, em muitos torneios de quadra rápida, as superfícies se tornaram menos velozes. Comparativamente à Federer, os outros três integrantes do grupo que convencionou-se chamar de “top four” se apoiam bastante na defesa; o suíço é claramente mais agressivo; seu jogo é proporcionalmente muito mais amparado nas bolas vencedoras do que no baixo número de erros não forçados. Sobretudo por esta razão, nos confrontos diretos entre eles, e mesmo pensando numa análise mais ampla, que transcende embates específicos, Federer é o componente deste quarteto fantástico mais prejudicado com a citada mudança nos pisos. Daí a conclusão – claro, apoiada em outras coisas, num bom senso, na observação das competições (...): se Federer realmente viveu tempos “não tão bons assim”, e simultaneamente seus rivais atingiam seus respectivos apogeus físicos e técnicos – Nadal teve “outros auges” antes do descenso do suíço –, talvez a seca em Grand Slams do velho/novo/eterno número um não se configurasse tão grande caso a destacada transformação de diversas quadras não tivesse ocorrido; talvez a discrepância neste período em que ele teve desvantagem não se provasse tão cristalina; talvez, por que não, sua longa maré destruidora fosse ainda mais gigantesca – será que numa quadra “mais raiz”, ou seja, mais rápida, como quase sempre fora tradicionalmente, ele teria perdido para Nadal a final de Wimbledon em 2008? Em suma: o maior vencedor de Majors, o tenista que mais tempo ficou na liderança do ranking, o melhor da história, quem sabe, poderia ter números ainda mais impressionantes...   

Dentro deste tópico é preciso considerar dois aspectos: Federer formou-se enquanto profissional antes da efetivação deste cenário de “retirada de velocidade” de muitas quadras do circuito; logo, provavelmente esmerou pontos do seu estilo buscando ainda mais excelência num determinado tipo de superfície; que ele “se adaptou” e praticamente não perdeu com as novidades advindas já com a carreira em andamento não surpreende dado o grau de seu gênio. Em segundo lugar, salientemos que alguns confrontos diretos importantes dele contra os rivais destacados acabaram com vantagem para os oponentes em quadros de extremo equilíbrio, definidos no fio da navalha, e com o peso crucial da combinação “excesso de erros não forçados de Federer/capacidade ímpar de defesa dos oponentes” – ambos os fatores possivelmente seriam minimizados com as quadras um pouco mais rápidas, em suas condições “normais” (talvez num patamar suficiente para mudar o dono da vitória).

Numa trajetória tão perfeita, é natural que o “e se” não seja tão lembrado. É como se ficássemos recordando gols perdidos pelo time que venceu de goleada; se elucubrássemos o que poderia ter acontecido no Mineirão caso a Alemanha claramente não tivesse tirado o pé. Ainda assim, em nome da verdade, do perfeccionismo, e da tentativa de apreendermos a excelência até a sua última gota, vale a pena...

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